Automatizar um processo ruim só acelera o problema

Antes de colocar IA ou automação em qualquer fluxo, vale uma pergunta desconfortável: esse processo deveria existir do jeito que existe hoje?

Gabriel Conti
Gabriel ContiFounder, Conti Consulting · · 4 min de leitura

Há uma frase atribuída a Bill Gates que circula há décadas em apresentações sobre tecnologia: a automação aplicada a uma operação eficiente amplia a eficiência; aplicada a uma operação ineficiente, amplia a ineficiência. Ela é repetida com tanta frequência que virou clichê. E, ainda assim, continua sendo ignorada na prática.

Com a popularização da IA, o risco ficou maior. Nunca foi tão fácil automatizar alguma coisa. Ferramentas de automação sem código, modelos de linguagem acessíveis por qualquer navegador, integrações prontas entre sistemas. A barreira técnica caiu. A barreira de pensamento, não.

O processo que ninguém questiona

Um padrão comum: uma empresa percebe que o time financeiro gasta muitas horas por semana conferindo pedidos antes de faturar. A solução parece óbvia: automatizar a conferência. Um sistema lê o pedido, compara com a tabela de preços, verifica o cadastro do cliente e aponta divergências.

O projeto funciona. A conferência fica mais rápida. Mas, alguns meses depois, alguém faz a pergunta que deveria ter sido feita no começo: por que tantos pedidos chegam com erro? A resposta revela que a tabela de preços vive em três versões diferentes, que o comercial negocia condições fora da política e que o cadastro de clientes não é atualizado há anos.

A automação não resolveu o problema. Ela só tornou mais eficiente a tarefa de encontrar os erros que o processo continua produzindo.

Automatizar a correção de um erro recorrente é pagar para conviver com ele de forma mais confortável.

Três tipos de processo que não deveriam ser automatizados como estão

Processos que existem para compensar outro problema

Conferências, validações duplas, planilhas de controle paralelas. Muitas vezes, essas etapas surgiram porque alguma coisa, em outro ponto da operação, não é confiável. Automatizá-las consolida a falha de origem em vez de corrigi-la.

Processos com mais exceções do que regras

Se cada caso precisa de uma análise diferente, a automação vai exigir tantos desvios e condições que se torna frágil e cara de manter. O primeiro trabalho, nesse cenário, é padronizar. A IA pode até ajudar a lidar com variação, mas precisa de um comportamento esperado para comparar.

Processos que ninguém sabe explicar por inteiro

Quando se pergunta "como isso funciona?" e cada pessoa da equipe dá uma resposta diferente, não existe um processo, existem vários. Automatizar um deles significa escolher, sem perceber, qual versão vai prevalecer.

A ordem certa

Não existe uma metodologia mágica, mas existe uma sequência que evita a maior parte dos desperdícios.

  1. Entender o objetivo. Qual resultado de negócio esse processo deveria produzir? Nem sempre a resposta é óbvia, e às vezes a conclusão é que a etapa inteira pode ser eliminada.
  2. Mapear como ele acontece de fato. Não como está no manual, mas como é executado no dia a dia, com os atalhos, as planilhas paralelas e as conversas de corredor.
  3. Simplificar. Remover etapas redundantes, eliminar aprovações que ninguém realmente analisa, corrigir a origem dos erros recorrentes.
  4. Padronizar. Definir entradas, saídas, responsáveis e o comportamento esperado em cada situação comum.
  5. Só então automatizar. Agora a automação tem uma base estável, um critério claro de sucesso e um processo que vale a pena acelerar.

Os três primeiros passos costumam gerar, sozinhos, uma parte relevante do ganho que se esperava da automação. E fazem com que o último passo seja mais barato, mais rápido e muito mais confiável.


Onde a IA entra de forma inteligente

Nada disso significa adiar a tecnologia indefinidamente. A IA pode ajudar inclusive nas etapas anteriores: analisar históricos para identificar onde os erros se concentram, classificar exceções para entender quais são realmente frequentes, resumir entrevistas com a equipe durante o mapeamento.

A diferença está na intenção. Usar IA para entender e melhorar o processo é bem diferente de usar IA para esconder um processo ruim. A primeira abordagem cria conhecimento. A segunda cria dependência de uma solução que precisa ser mantida para sustentar um problema que continua lá.

Essa mesma lógica vale para decisões mais ambiciosas, como discutido em por que sua empresa provavelmente não precisa de um agente de IA ainda. Quanto mais autonomia se quer dar à tecnologia, mais claro precisa ser o processo que ela vai executar.

A pergunta desconfortável

Antes de aprovar o próximo projeto de automação, vale fazer uma pergunta que raramente aparece nas reuniões: se estivéssemos desenhando essa operação do zero hoje, esse processo existiria desse jeito?

Se a resposta for não, a automação pode esperar algumas semanas. O tempo investido em redesenhar costuma se pagar muito antes do que o tempo investido em acelerar algo que não deveria existir.

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Gabriel Conti
Sobre o autor

Gabriel Conti é fundador da Conti Consulting e atua há mais de uma década com vendas B2B, operações e tecnologia, com especialização em Inteligência Artificial pela PUCPR. Escreve sobre aplicação prática de IA, automação e dados em problemas reais de negócio.

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