Reforma tributária: o maior risco da sua empresa não é a alíquota, é o cadastro
Com CBS e IBS já destacados nas notas fiscais e 2027 batendo à porta, a discussão costuma girar em torno de quanto se vai pagar. Para a maioria das PMEs, o problema mais urgente é outro: dados desorganizados que vão custar margem, crédito e tempo.
A reforma tributária deixou de ser assunto de seminário. Desde janeiro de 2026, CBS e IBS passaram a aparecer nas notas fiscais em caráter de teste. Desde agosto, empresas do regime regular não conseguem emitir nota sem preencher esses campos. E em 2027 a CBS entra para valer, com o fim do PIS e da Cofins.
Na maioria das conversas com empresários, a pergunta é sempre a mesma: "vou pagar mais ou menos imposto?". É uma pergunta legítima, mas que dificilmente tem resposta simples, e que desvia a atenção do que realmente vai pesar no dia a dia das pequenas e médias empresas: a qualidade dos dados que alimentam cada nota, cada preço e cada crédito.
O novo sistema cobra organização, não só imposto
A lógica da reforma é a da não cumulatividade ampla: em tese, cada empresa paga sobre o valor que agrega e se credita do que já foi pago nas etapas anteriores. Na prática, isso desloca o peso do sistema para a informação. O crédito depende de documento correto. O documento correto depende de cadastro correto. E o cadastro correto depende de alguém ter arrumado a casa.
É aqui que muitas empresas vão sentir o impacto antes mesmo de sentir a alíquota. Os sintomas são conhecidos:
- Cadastro de produtos e serviços desatualizado, com classificações copiadas de anos atrás e itens duplicados.
- Fornecedores sem informação confiável, o que dificulta saber qual compra gera crédito e qual não gera.
- Preço formado "no feeling", sem uma planilha de custo que permita recalcular margem quando a tributação mudar.
- Contratos longos sem cláusula de revisão, assinados com base em uma carga tributária que vai mudar ao longo da transição.
- Sistema de gestão desatualizado ou subutilizado, com parte das informações vivendo fora dele, em planilhas e conversas.
Nada disso é novidade. A reforma apenas transforma um problema que antes era de eficiência em um problema que agora custa dinheiro diretamente.
Três decisões que dependem de dados, não de opinião
Preço. Quando a composição dos tributos muda, a margem de cada produto muda junto. Quem tem custo por item e regra de formação de preço explícita consegue simular cenários. Quem forma preço por intuição vai descobrir a mudança na margem pelo resultado do trimestre.
Compras e fornecedores. No novo modelo, comprar de um fornecedor que gera crédito pode valer mais do que um desconto aparente de outro que não gera. Essa comparação só é possível com histórico de compras organizado e cadastro de fornecedores confiável.
Regime tributário. Empresas do Simples Nacional também precisam olhar para o tema. Dependendo de quem são seus clientes, especialmente se vendem para outras empresas, pode fazer sentido avaliar com o contador as opções que a nova legislação abre para quem quer gerar crédito ao comprador. Essa conversa é muito mais produtiva com números na mesa.
O papel do contador e o papel da gestão
Vale separar responsabilidades. A interpretação da lei, o enquadramento correto e as obrigações acessórias são trabalho do contador e do especialista tributário. Mas o contador trabalha com o que a empresa entrega. Se o cadastro está bagunçado, o fechamento é atrasado e as compras não têm registro limpo, nenhum contador consegue fazer milagre.
A preparação para a reforma, portanto, é tanto tributária quanto de gestão. E a parte de gestão é a que mais depende da própria empresa: processos claros, dados no mesmo lugar e rotina de revisão. É o mesmo ponto discutido em empresas tradicionais da Bahia e a barreira da previsibilidade: não há como tomar boas decisões sobre uma operação que não tem registro confiável de si mesma.
Um roteiro simples para os próximos meses
- Revisar o cadastro de produtos e serviços. Eliminar duplicidades, conferir classificações com o contador e definir um responsável por manter o cadastro limpo.
- Organizar a base de fornecedores. Saber quem são, o que fornecem, em que regime estão e quanto representam no custo.
- Explicitar a formação de preço. Uma planilha simples, por linha de produto, que permita recalcular margem quando a carga tributária mudar.
- Mapear contratos de médio e longo prazo. Identificar quais precisam de cláusula de revisão para a transição.
- Confirmar que o sistema de gestão está atualizado. E, mais importante, que a operação está de fato dentro dele, e não em planilhas paralelas.
Automação e inteligência artificial podem ajudar em várias dessas etapas, como conferir cadastros em lote, cruzar notas de entrada com pedidos de compra e sinalizar inconsistências. Mas, como já discutimos em por que automatizar um processo ruim só acelera o problema, a ferramenta só funciona depois que o processo está claro.
A reforma é um teste de maturidade
No fim, a reforma tributária vai funcionar como um grande teste de maturidade de gestão. Não vai premiar necessariamente quem paga menos imposto, mas quem enxerga melhor a própria operação. Para muitas pequenas e médias empresas, essa é a oportunidade de fazer, com prazo definido, uma arrumação que vinha sendo adiada há anos.

Gabriel Conti é fundador da Conti Consulting e atua há mais de uma década com vendas B2B, operações e tecnologia, com especialização em Inteligência Artificial pela PUCPR. Escreve sobre aplicação prática de IA, automação e dados em problemas reais de negócio.